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Mudanças e tendências no mercado de embriões bovinos no Brasil

João Henrique Moreira Viana
Pesquisador da Embrapa Gado de Leite
Membro da SBTE e do Data Retrieval Committee da IETS

A compilação dos dados referentes a produção e transferência de embriões bovinos no mundo em 2007, apresentada pela Sociedade Internacional de Transferência de Embriões no final de 2008 [1], confirmou a tendência de aumento na participação do Brasil, que alcançou 32,8% do total, quase um terço da produção mundial (Tab. 1). A mudança ocorrida no mercado nacional após 2004, com a progressiva substituição da chamada transferência de embriões convencional (ou simplesmente TE) pela produção de embriões em laboratório (conhecida por FIV ou PIV), fez com que a participação do Brasil no total de embriões produzidos por superovulação fosse reduzida pela metade no período 2004-2007. Com isso, o país ficou atrás, no cenário mundial, do eixo EUA-Canadá e também do Japão. No mercado de embriões FIV, por outro lado, o país consolidou uma liderança absoluta, respondendo por mais de 85% do total mundial. O vigor da atividade até 2007 foi refletido não apenas no número de embriões produzidos e transferidos, mas também no número de laboratórios em atividade (incluindo a abertura de filiais no exterior), no mercado de insumos, serviços e treinamento, e na demanda por pesquisa e desenvolvimento nos gargalos da técnica. O avanço na FIV no Brasil também criou uma polarização no mercado mundial de embriões bovinos, com a América do Norte (EUA e Canadá) dominando a produção in vivo (52,2%), e a América do Sul (Brasil) dominando a produção in vitro.

O cenário da atividade até 2007 permitia uma expectativa positiva para os anos subsequentes. O ano de 2008 foi, contudo, um ano atípico. Após um primerio semestre de economia aquecida, com projeções otimistas em praticamente todos os setores da economia, seguiu-se a crise econômica mundial, cujo alcance nos diferentes países e segmentos ainda é motivo de controvérsia. Em um mercado como o de genética bovina, cujos investimentos são sempre de médio e longo prazo, este novo cenário de incertezas poderia trazer uma grande retração, em função de uma postura mais conservadora por empresas e criadores. Ainda que os dados do levantamento de 2008 devam ser analisados com cautela, em função de englobarem períodos pré e pós crise, uma avaliação preliminar mostra que houve crescimento, ainda que pequeno, tanto na TE quanto na FIV (Fig. 1). Este crescimento é também consistente com outros indicadores do agronegócio, que apontaram pouco efeito da crise no setor [2], e com o próprio desempenho geral da economia brasileira, que apesar da situação econômica conseguiu, segundo dados do Relatório Global de Competitividade 2009-2010, ganhar oito posições no ranking mundial [3].

Os dados de 2008 mostram, contudo, algumas mudanças no mercado nacional de embriões. Após um período de intenso crescimento, no período de 2002 a 2006, a FIV apresentou uma tendência de estabilização. A redução na velocidade de crescimento da FIV era esperada, em função da redução natural na demanda reprimida que havia no mercado de reprodutores, e também em função das próprias limitações da FIV, como a dificuldade na criopreservação dos embriões. Esta hipótese é corroborada pelo fato de que o crescimento na TE (o primeiro desde 2005) foi associado à um expressivo aumento no número de embriões congelados em relação aos transferidos a fresco nesta técnica (47,1% do total em 2008, contra apenas 11,1% em 2007 e 12,3 em 2006). Como a congelação de embriões ainda é muito limitada na FIV (7,4% do total), o crescimento na TE pode refletir um aumento na demanda de embriões criopreservados, seja para fins de otimização no uso de receptoras, seja para fins de comércio. O aumento no percentual de embriões congelados em 2008 também resultou em redução do número de embriões transferidos a fresco em relação a 2007, apesar do aumento na produção total de embriões.

As raças zebuínas ainda respondem pela maioria absoluta dos embriões produzidos no Brasil, com 94,0% do total. Até 2005, a distribuição das raças era caracterizada pela predominância (>95%) do zebu de corte. Nos últimos três anos, contudo, observa-se um crescimento consistente na participação das raças leiteiras no mercado de embriões (Fig. 2). A história da TE no Brasil começou em raças taurinas leiteiras, mas a participação de raças leiteiras no mercado de embriões, que chegou a 36,3% do total em 1998, caiu de forma acentuda com o avanço da FIV após 2002. A recuperação observada nos últimos anos deve-se ao aumento da participação das raças zebuínas leiteiras, especialmente da Gir (68,0% do total em raças leiteiras), e também da Girolando (22,4%), única raça composta com participação expressiva tanto na TE quanto na FIV. Neste último caso, observa-se também uma mudança conceitual no emprego das biotécnicas, uma vez que em raças de corte o foco era exclusivamente a produção de reprodutores e doadoras, enquanto em raças leiteiras compostas o interesse passa a ser também no animal como unidade produtiva.
O avanço das raças leiteiras foi impulsionado pelo bom momento do setor nos últimos anos, caracterizado por aumento do preço médio de leite e derivados e das exportações, que apenas entre 2006 e 2007 cresceram 77,6% [3]. As condições favoráveis de mercado resultaram também em aumento de valor de mercado dos animais e na comercialização de sêmen de raças leiteiras, cuja participação no mercado aumentou de 35,5% para 49,4% no período 2004-2008 [4]. O maior valor de mercado da genética leiteira, associado ao desenvolvimento de tecnologias como o sêmen sexado e a necessidade dos laboratórios de ampliar mercados, viabilizaram o maior emprego de biotécnicas reprodutivas na pecuária leiteira.

Considerações finais

A despeito da crise, a atividade de produção e transferência de embriões no Brasil manteve o crescimento, consolidando a posição do país como referência no emprego de biotécnicas reprodutivas e, particularmente, da produção in vitro de embriões bovinos. Os números de 2008, contudo, apontam para algumas mudanças no mercado nacional, e que incluem a opção preferencial das tecnologias (TE e FIV) em função do destino do embrião, um aumento na demanda pela criopreservação de embriões e uma maior participação de raças leiteiras. Estas mudanças demonstram como a atividade é dinâmica, assimilando rapidamente novas tecnologias e adaptando-se continuamente às condições de mercado.

Referências:

[1] Thibier, M. Data Retrieval Committee Statistics of Embryo Transfer- Year 2007: The worldwide activity in farm animals embryo transfer. Embryo Newsletter, December, 2008.
[2] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Indicadores de produção. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/agropecuaria
[3] Centro de Inteligência do Leite. Principais indicadores agrícolas. http://www.cileite.com.br/indicadores_leite.php
[4] Associação Brasileira de Inseminação artificial. Relatórios de comercialização de sêmen. http://www.asbia.org.br/download/mercado/relatorio2008.pdf
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